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Não pense. Milite.

Todo pensamento carrega um lado. O erro é parar de ouvir o outro.

Por Thomas Haag|tom.j.haag@gmail.com

Ligo a televisão e vejo o impensável. Gente que se diz progressista defendendo estados fundamentalistas. Movimento LGBT fazendo coro com Hamas e Irã. Ativistas que, enquanto pregam diversidade e direitos humanos, levantam a bandeira de regimes que prendem, agridem e executam homossexuais e mulheres há mais de quatro décadas. E fazem isso com orgulho.

No Brasil, não é diferente. Parte da elite política e intelectual se alinha com o que existe de mais retrógrado e disfuncional no cenário internacional. A diplomacia brasileira, outrora reconhecida por sua sobriedade, hoje se curva a ditaduras e se afasta das democracias liberais. E quem aponta o óbvio é acusado de alarmismo ou “reaça”.

O jornal britânico The Independent escancarou o vexame: criticou abertamente o Brasil por sua postura dúbia, omissa e cada vez mais constrangedora no cenário global. Mas aqui, alguns fizeram silêncio e outros acharam o jornal exagerado. Afinal, a crítica não interessa quando não vem do lado “certo”.

Vivemos tempos em que a lógica deixou de ser critério. O que importa não é mais o que é dito ou feito, mas quem diz, quem faz, quem ataca e quem defende. A racionalidade foi substituída por um tribalismo intelectual que só reconhece validade moral no discurso do aliado.

Temos uma imprensa que defende aumento de impostos como se isso fosse um sinal de avanço, mesmo diante de um Estado inchado, ineficiente e afogado em déficit fiscal. Que normaliza a censura, a vigilância, a perseguição. Que idolatra ministros do Supremo que julgam, investigam, punem e, se necessário, se colocam como vítimas.

Temos artistas e intelectuais que se dizem defensores da arte e do pensamento crítico, mas que aplaudem quando vozes dissonantes são caladas com mais força do que se prende traficantes e assassinos. E que permanecem em silêncio diante de absurdos, desde que venham do lado com o qual se identificam.

Temos um governo que diz não poder repatriar o corpo de uma brasileira morta em uma clara omissão internacional, mas que financia viagens sem sentido da primeira-dama, com comitivas e discursos vazios. E a crítica da mídia tradicional a isso? Quase inexistente. Porque os que deveriam cobrar se ajoelham ao poder de turno.

O problema não é ideológico. É civilizacional. A polarização política, aqui e em grande parte do mundo, não está apenas dividindo as sociedades. Está corroendo suas bases mais fundamentais: a razão, a ética, a busca pela verdade, o apreço pelo contraditório, o valor da justiça.

Os pilares que sustentam as democracias ocidentais, construídos a duras penas ao longo de mais de dois mil anos, entre erros e acertos, estão sendo substituídos por narrativas que se alimentam do ódio ao outro e da fidelidade cega ao próprio grupo. Porque, como escrevi no subtítulo deste texto, todo pensamento carrega essencialmente um lado político. O erro é parar de ouvir o outro com base apenas nas próprias crenças.

Alguns podem dizer, baseados no que escrevi, que bati mais em um lado do que em outro. Até faria sentido em uma lógica rasa. Virou costume a defesa pela réplica de uma suposta falta de isonomia. Só que, desde que o mundo é mundo, quem é governo e situação sustenta a posição de vidraça. É assim que deve ser em uma democracia madura. Quem exerce o poder precisa suportar o peso das críticas, não só porque é parte do jogo democrático, mas porque tem nas mãos a caneta, o orçamento, a máquina e, acima de tudo, a responsabilidade.

A razão deixou de importar. O que vale agora é a versão.

E, sem pensamento, o que sobra não é sociedade, é apenas trincheira.

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